segunda-feira, agosto 28, 2006

E vão uns traços algo banais de o serem, algo salientes em exageros relativos. Vagos traços de possibilidade hipotética.

Dia 18:

Tenho no centro de mim a resposta.
E que resposta...
Chama-se prazer, derivado da paz.
Hoje, acarinho-me enquanto duro.
Ça, c'est l'aujourd'hui.

Filosofias conscientes,
visões duras sentidas na pele,
as coisas que acontecem,
tudo à parte.
Eu sou o querer ter-te ao meu lado,
minha pessoa abstracta por vir,
meu Amor.

E para lá deste amor embriagante,
sem causa nem destino?
Este amor absoluto que tanto cega?
Um silêncio, hoje tímido,
hoje verdadeiramente inaudível...
mas sim, um silêncio,
e sobretudo uma voz calada;
uma construção em suspenso.

Dia 19:

Todo este grande manicómio,
todo este grande hospício
alberga-me a incerteza indecisa.

Tenho de voltar a tocar,
isso é certo.
A única ilusão que vale a pena
as vezes necessárias.
Já na realidade, é tentar -
É ir tentando,
quando for caso disso,
quando não houver premeditações
que a façam passar a ser uma outra tentativa,
uma de cumprimento.

Dia 22:

Este contraponto que prevalece antes de seja o que for, que se substitui ao futuro e corrói os inícios, desmorona as pontes, enfurece o vazio, despromove os preenchimentos...

Mais vale é não pensar nisso.

Agora:

E isso custa, especialmente quando há uma dinâmica social dos contentes instalada. Mas talvez eu seja fraco, ou enfraquecido, vá. Lá simples sou, em vários pontos de vista aprendizagens empíricas. De resto, sei que tenho potenciais determinados. Resta verificar na prática as medidas disto e daquilo, e balancear a coisa.

*

sexta-feira, agosto 11, 2006

Tantas vezes, que me deixo sair de cena, abortar a segurança, a desobstruída vontade de entendimento, precisamente quando sinto ter algo para dizer, quando sinto ser o momento de avançar.
Um espírito que se dissipa no assombro da realidade, contrariado a curto prazo.

É só este, o traço irreflectido que vos trago hoje.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Da mesma forma que há por aí tantas vidas em rodopio e sentimento, há por aí tantos grupos de amigos. Há algo de óbvio e natural na sua forma de lidar com o mundo, que passa por terem todos tido amigos com quem alimentar os traços básicos da sua maneira de estar na vida, com quem adquirir a noção íntima de segurança na posição, no trato, para poder dar-se a uma gestão inconsciente do seu trilho de vontades e hábitos praticamente próprios, sem sensação de novidade nem de perigo demasiado subjacentes.

Mas terá que ser sempre esta a história de uma pessoa normal?
O que me leva a pensar... E se nós formássemos um grupo de inimigos?
Queres ser meu inimigo?

Ora este sou eu: nasci num dia, e vivo num determinado sector da sociedade.
Agora já me podes odiar - comecemos!
Vamos tomar um café discretamente envenenado. Vamos jogar à pedrada. Vamos falar de insulto e difamação. Yuhu.

Não sei lá muito bem se isto cabe aqui no meu blog, é que...
"Ah, mas tu tens um blog."
Sim, parece-me óbvio. Vago, mas um blog.
"O teu blog.. mas tu, quem és?... Um ser vivo suponho..."
Sim, parece-me óbvio... Vaga, mas uma vida.

"Estou a ver."
Pois. Gostaste desta repetição de estrutura na resposta, do reforço (que é o padrão) da incompletude do conceito inserido, e do acréscimo em dramatismo (que é a pompa do inesperado) pelo crescendo de gravidade dessa incompletude, portanto. Ou pelo menos, sentiste que tal sublinhou o dito.
"Pois sublinhou."
Pois.

...

Se tivesse mesmo gente na minha cabeça com quem elaborar, dialogar!
Como dizia o Sr. Álvaro de Campos, "Se ao menos endoidecesse deveras!"

segunda-feira, agosto 07, 2006

De volta
à
banalidade,

no mau sentido
da
palavra.

Fragmentário
me
despeço.
Enfim, não sei porque faço estes posts mastigados, pois do que fica explícito, eu próprio tenho de fazer um esforço para extrair os significados que queria dar aos símbolos... Se o consigo ao de leve, é mais só porque me lembro... Digo isto porque esta foi mais uma vez em que tal é atroz. O problema é quando faço a passagem entre significados, quando introduzo novos elementos que vêem no seguimento do propósito semântico já exposto, mas que se não estiver suficientemente estabelecido (e raramente o está) torna ainda mais vago o entendimento deles, e ainda mais vaga a coerência da sua correlação. Interrogo-me se alguma vez alguém consegue contornar totalmente as interpretações erradas? Espero pois que não se ponham a encontrar ideias perigosamente diferentes das minhas nos meus posts.
Mensagens subliminares, ou isso... Por favor não vão invadir a Espanha com uma fisga de atirar pastéis, e um penico na cabeça para proteger dos touros. Não afoguem os vossos quarto e sexto filhos em água potável e voem até ao maior deserto do Sudão para oferecer os seus pulmões a dois birmaneses que lá foram vender autocolantes do seu clube de voleibol para coleccionar, mas que se perderam do safari dos clientes após uma tempestade de areia, sendo que o tornozelo do primo de um deles tinha sido acidentalmente pisado por um elefante quando era tratador de um zoo algures na América Central.
Espero ter-me feito entender, que isto às vezes pode haver mal-entendidos, cuja possibilidade me passa ao lado quando escrevo, mas que às vezes mais tarde dou por ela.
Fazer coisas
e despachá-las incompletas.
Falhar a estratégia do mundo.
É dormir que quero?
Nem isso - acho.

Certezas, muito menos...
o requinte não passa de as coisas vistas através do véu-nós.
Esquece quem queres ser
pois o não queres ser.
Estás a pegar em fogo-fátuos,
mas o amor de verdade é cego.
O amor de mentira é forte,
mas esvanece-se.
Assim que a mão deixa de ser mão,
sente-se a queimadura do tempo passado a segurar.
Assim se agarra na percepção.

Esquecer as tensões, as posturas,
essa falta de objectividade no desejo da vida
ao tratar o gesto-voz por objecto,
ao morder o engodo da situação.
Mas por trás da situação há uma outra,
por trás da mesma ainda outra, e por aí fora,
até que os engodos são outros
e as máscaras de tradição caíram uma a uma.

Mas e depois?
...
Depois, fecha-se este capítulo habitual,
em conivência com o que foi dito,
de certa forma por determinar.

E dói,
o facto de também não ter dito nada.

sábado, agosto 05, 2006

Ecos de Deus


I
Viagem universal

Alguém perdido num firmamento
vê o eclipse do requinte.
A cósmica luz cujo sustento
é a partícula que se sente

atravessar os espaços negros,
as cintilantes auras esbatidas,
essa luz de vôos íntegros
que torneia as várias coloridas

faces da matéria, de isto a lira,
à velocidade da luz se apaga.
Escurece, iluminando a mentira.
É a vida o que o vácuo esmaga.


II
A côr da dôr

A dor é réplicas do porvir
degeneradas, impressionismo,
pintalgadas telas do sentir,
representando o malabarismo

de existir. Azul a mágoa,
a púrpura raiva a tingir:
pedras atiradas à lagoa
de estar à beira do fingir.


III
Ecos de Deus

Deus espreita, na mão a ânfora,
e bebe uma poção sem esperança.
Divino é só o que vem lá de fora.
Solene é só a brisa que amansa.

Se tudo apodrece,
que apodreça também o requinte.

O silêncio é uma lira morta.
O ouvido, a consciência calejada.

Que o ar rasgue e desfolhe
isto.
E os relógios pulsam a pouco e pouco.
Não estou aqui a fazer nada;
estou a adiar o provável adiamento seguinte.

Tudo se consome, tudo se gasta, e na corrida de sempre, continuo parado.

A minha maior saliência é todo este estar parado,
rocha de aridez e erosão sem causa;
a erosão de ela mesma não ter uma causa.

Tudo é mormente o momento de agora, e uma estilística caverna de vício sem química.
E nem sequer tenho um grande sulfato que escrever.

Pequenez sem pena ou nada.
A tinta é falta de evitamento-liberdade.
Esborracha-se,
no ecrã impávido e implacável.
A cabeça só se soergue num patamar antigo,
de quando em quando,
para saber que não está à vista.

Cobrindo o pátio-novidade, um gigante mata-borrão
parado.
E diluo-me continuação,
entre aspas.

Sem.